23 outubro 2019

A minha experiência com o parto

 Estive durante quatro meses a ponderar se escreveria este post ou não. Pensei muito porque enquanto estive grávida nunca quis saber de relatos de outras gravidezes e fugia a sete pés de histórias de drama e tragédia. Mas como aquilo que tenho para partilhar com vocês é tão bom e tão tranquilo acho que faço bem em partilhar.

 Em primeiro lugar quero dizer que já deveria ter publicado o post onde falo da hipertensão e da gravidez. Está começado mas não está terminado. Achei por bem começar por falar de coisas boas e o meu parto e do Pedro foi uma coisa maravilhosa! Mas já lá chegaremos, vamos por partes.

 Antes de mais quero só fazer um breve resumo da minha gravidez: foi uma gravidez tranquila mas de alto risco. Era considerada como tal mas sempre me senti bem e não tive sintomas chatos (enjoos, pernas cansadas, etc). Por ser uma grávida com hipertensão crónica (Desde os 19 anos) fui muito vigiada! A partir do meio do segundo trimestre era vigiada quase semanalmente. Era avaliada a possibilidade de vir a desenvolver pré-eclâmpsia e o bebé era avaliado também. Fiz mais ecografias que uma grávida "normal" pois a situação assim o pedia. Devo ainda dizer que fui muito bem seguida pelo Dr. Joaquim Carvalho e não trocaria de médico por nada desde mundo. Sempre demonstrou interesse e preocupação e tudo fez para que tudo estivesse controlado. Para mim e para o André, um profissional 5 estrelas.

 Mas antes do parto falemos da preparação. Foi-me dito para não fazer porque seria dinheiro deitado à rua e etc e tal. Preferi seguir as opiniões positivas que me diziam que tinha tido uma influência bastante positiva na hora do bebé nascer. E foi a MELHOR decisão que tomei. E porque recomendo a toda a gente que faça a preparação para o parto?

- Em primeiro lugar porque os medos que temos na gravidez e parto são esclarecidos e apaziguados.
- O contacto com outras grávidas é super bom e trocamos experiências e dúvidas.
- Aprendemos os cuidados com o bebé e esclarecemos muitas dúvidas relativas à amamentação.
- A maior parte das aulas são práticas onde a respiração é treinada. Faz toda a diferença porque enquanto estamos concentradas no tipo de respiração não estamos a pensar na dor.
- Visitamos a maternidade, ficamos a conhecer o processo para parto normal e para cesariana e ainda ficamos familiarizadas com termos técnicos. Se soubermos o que a equipa fala entre si é muito mais fácil de controlar a ansiedade.

 Se tivesse um segundo filho creio que voltaria a fazer porque a parte prática é mesmo super importante e foi isso que tornou o meu parto tão fácil! Fiz com a melhor enfermeira, a Ju! Outro aspecto super positivo: já conhecemos alguém da maternidade e se entrarmos em trabalho de parto contactamos a Ju e ela fala com as colegas caso não esteja de serviço. Uma profissional de ouro mesmo!


 Mas vamos para a parte que interessa: o parto. E antes de vos relatar a minha experiência quero deixar claro uma coisa: esta foi a minha experiência e houve diversos factores que contribuíram para que assim fosse. Sei que o mesmo não se passa com outras mulheres que ficam traumatizadas. Já me foi dito, inclusive, que o parto que tive não é normal e que é uma excepção. Uma pessoa que adorou ter sofrido com toda a certeza e que acha que a dor é a escala para se medir a valentia de uma mulher.
Não precisei de sofrer para ser valente. Comecei por ser valente ao decidir engravidar sabendo dos riscos inerentes. Fui valente durante 38 semanas e 3 dias de gestação por conseguir ter uma gravidez tranquila. Valentia não é gritar e ter dor. E por isso, desejo de coração a todas as grávidas que tenham uma experiência tão positiva quanto a minha.


 Na segunda-feira dia 24/06/2019 fui ter com o Dr. Joaquim Carvalho ao hospital de Évora para as análises semanais e CTG. Tudo ok com o CTG e com as análises mas a tensão estava nos 140/90.
 O Dr. disse que ia fazer uma medicação e que depois ia para casa. Estive a fazer medicação e a ser vigiada constantemente. Mas a maldita teimava em não baixar. Disseram-me que tinha que ficar e o meu medo foi ficar internada até às 39 semanas ou quando ele decidisse nascer. Aí o correr de lágrimas foi inevitável. Porque a tensão não baixava e porque não ia ver mais a minha família até o Pedro nascer. Não era assim que eu tinha imaginado a situação.

 Mudei para um quarto com apenas duas camas onde era feita a dilatação e tiveram o cuidado de me deixar sozinha nesse quarto durante a noite para que pudesse relaxar e tentar baixar a tensão. Tinha 1 dedo de dilatação na segunda-feira à noite...nada do outro Mundo. O André ficou comigo até à meia noite e depois teve que ir embora. Nessa noite ouvi os partos todos que decorreram na sala de partos ali ao lado. No entanto não me fez confusão, consegui descansar.

Na terça-feira, às 08h30 fizeram indução com um gel intra-vaginal. Passei a manhã, já com o meu André ao lado, relativamente calma. Essa primeira tentativa de indução apenas trouxe dores leves como se a menstruação fosse aparecer. Ainda passeei pelos corredores durante a manhã.

 Às 14h30 fizeram indução com 1/4 de comprimido na bochecha. Foi esse 1/4 que mudou o rumo das coisas. O André começou a analisar o gráfico do CTG e viu que as contrações eram mais fortes. Tive dores, claro que tive, mas era suportáveis. E eu suporto muito a dor, esse foi um factor determinante.
 Respirava fundo, como a Ju ensinou na preparação, e pedia ao André para me abanar com um leque.
 Ele estava sempre de olhos postos no ecrã e sabia quando ter o leque em posição de ataque.
 Passado pouco tempo de tomar o comprimido senti as águas rebentarem. Chamei uma enfermeira que eu conhecia, a querida Nídia.

"Nídia, senti qualquer coisa a sair!"

 Após observação saiu ainda mais liquido amniótico e foi-me dito que já não poderia levantar-me da cama. Essa parte deixou-me um pouco preocupada porque eu sabia que tinha que fazer a função número dois antes de ter o bebé. Mas nesses momentos perdemos a compostura toda minha gente. Fazemos cocó e chichi mesmo ali, vem um médico e põe a mão, vem outra e também observa. Somos do povo!

 Depois das águas rebentarem, por volta das 15h30, as dores aumentaram consideravelmente de intensidade. Nunca gritei ou esperneei. Isso não iria amenizar a dor, só iria irritar quem estava ao meu lado. Focar na respiração e ter fé em Deus.

 Uma das enfermeiras que assistiu ao meu parto perguntou-me:

 "Você tolera muito a dor não tolera?"

 Porque eu nunca queria chamá-las. Achava que aguentava mais e o André sofria por mim e chamava-as. Talvez se não fosse ele a chamar na altura certa e não teria tido hipótese de levar epidural. Devo-lhe essa! Eu achava que aguentava mais e já estava no limite para poder levar epidural. Bring it on, queria tudo a que tivesse direito.

 A Ju despediu-se de mim e disse que só devias nascer pela madrugada pois a dilatação ainda estava a andar pouco.

 Quando levei a epidural aconteceu-me uma coisa que não é comum acontecer mas que tinhamos falado na preparação: fiquei anestesiada apenas do lado direito. Do lado esquerdo sentia tudo.
Disse ao André que não fazia mal, era preferível sentir metade do que sentir tudo! (Burra!)

 Levei uma segunda dose de anestesia e aí sim, deixei de sentir dor. Cantava para dentro a canção "Aleluia!". Por volta das 18h10 comecei a sentir uma pressão lá em baixo e comentei com o André. Ele chamou a enfermeira pois estava mais nervoso que eu. Pediram que saísse para me observarem.

 Ouvi dizerem "Vai nascer, tragam a cadeira de rodas!". E eu pensei "WTF, já?".

 Quando o André viu trazerem a cadeira de rodas enquanto esperava no corredor pensava que era para a rapariga que estava ao meu lado e estava mais avançada que eu na dilatação.
 A enfermeira perguntou se eu sabia o que fazer no período de expulsão e eu disse que sim, a Ju tinha ensinado bem.

 Let´s go! Bora lá conhecer o pequeno Pedro.

 Fui para a sala de partos (já a conhecia por ter visitado a maternidade). Não era o meu médico que ia fazer o parto mas eu tava tranquila porque toda a equipa era fantástica.
 Inicialmente era para ser uma enfermeira parteira a fazer o parto mas entrou a Doutora Lília, uma médica super querida, e disse que queria ser ela a fazer. Mais tarde soube que outro médico também queria e ninguém o avisou. :P

 Deitei-me na marquesa, o André ao meu lado, uma enfermeira de cada lado e a doutora de braço esticado à espera do Pedro. Esperámos que tivesse uma contração mas eu não sentia nada, nem as contrações. Havia um silêncio absoluto naquela sala de partos. E de repente o André pergunta "Está tudo bem?". Estava, só estávamos à espera de uma contração para iniciar o período de expulsão.
 Tive que levar um pequeno corte mas não senti nada, nem dor nem o corte em si.

 Como não vinha nenhuma contração eu fiz força a pedido das enfermeiras. Repeti 3 vezes e senti o Pedro nascer. Quando o vejo nos braços da Doutora nem queria acreditar naquele ser tão perfeito que eu tinha carregado durante 38 semanas e agora estava ali a miar suavemente. Colocaram logo o bebé no meu peito e estava perfeito para um bebé que nasceu de parto normal. Foi o nosso primeiro momento a 3. Não conseguíamos dizer nada, só contemplar tamanha perfeição.

 Um parto rápido que terminou às 18h34 com o nascimento do nosso anjo. Um parto Zen, como a doutora lhe chamou, sem um único grito. Ficou prometido que se tiver mais filhos é a Doutora que quer fazer todos os partos. Um dos momentos que mais recordo foi o André ter cortado o cordão umbilical. E ali nascemos os três, num amor profundo e nunca antes vivido.

 Foi perfeito e tranquilo. Agradeci muito a Deus por me dar esta oportunidade de saber o que é ser mãe. De ter o coração fora do peito e ser feliz com os meus homens.

 O meu marido é a pessoa mais discreta do Mundo e não tinha dito a ninguém que eu já estava em trabalho de parto, para não preocupar ninguém. Então ligou à família toda a dizer "Já nasceu!" e foi a surpresa geral! Por um lado foi melhor assim.

 Nasceu mais cedo que o previsto mas 4 meses depois está forte e saudável. É um bebé calmo e que nos dá boas noites. É muito melhor do que alguma vez desejámos ou imaginámos.


 Foi assim a minha experiência, super positiva. Posso não ter mais nenhuma igual mas por agora é o que posso partilhar com vocês. Os factores preparação para o parto, tolerância à dor e marido tranquilizante foram decisivos.




Agradecemos a toda a equipa da maternidade do Hospital do Espírito Santo de Évora pelo profissionalismo e dedicação. Pela paciência nos choros estridentes a meio da noite, pelos ensinamentos nas cólicas e na amamentação. 
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