06 dezembro 2018

O meu detox das redes sociais

(Tenho esta publicação pendurada há muito tempo. Acho sempre que há algo mais a dizer sobre o assunto. Hoje é dia de publicar e dizer o essencial.)

 Não pretendia abordar este tema de forma demasiado séria. Ponderei antes de escrever sobre isto e dar a minha opinião. Opinião essa que vale o que vale mas que é sincera. Sempre me manifestei de forma sincera e directa e é assim que continuarei a actuar. Seja na vida real ou na vida online.

Decidi fazer um detox de redes sociais e toda a fantochada que daí advém. Para tudo devemos fazer um balanço para apurar os pontos positivos e aqueles que tornam a coisa aborrecida, que nos levam a tomar o caminho dessa mesma fantochada. E acho que perdemos um bocado (grande!) a noção da percentagem do nosso tempo pessoal que dedicamos ao mundo das redes sociais e que nos faz perder um pouco o norte. Senti que estava a perder a essência da vida real, aquela que vivemos entre quatro paredes com aqueles que amamos. Lá fora estava também a perder detalhes deliciosos. Focava um ponto para partilhar nas redes sociais mas desfocava tudo o resto que estava à minha volta.

Percebi então que a minha vida estava demasiado envolvida nas redes sociais, mesmo não sendo aquela pessoa que partilha o pequeno-almoço, o almoço, o batido detox, a ida ao ginásio (até porque não vou), o look do dia, a makeup do dia, o café do dia, o passeio do dia com o pet, a série do dia com a pantufa do dia. Nada contra quem o faz, apenas não encaixa na minha personalidade.

Tal como qualquer outra droga, só custam os primeiros dias. Tenho essa experiência relativamente ao açúcar. Nos primeiros dias desesperamos por uma bola de berlim a rebentar pelas costuras de um belo creme pasteleiro super saboroso. Cerca de 15 dias depois uma simples tâmara é capaz de nos saciar tanto quanto a bola de berlim. É uma questão de hábito e força de vontade.

Nos primeiros dias achei estranho não partilhar rigorosamente nada nas redes sociais. Sentia falta das notificações a embelezar o meu ecrã de telemóvel. Estava, finalmente, a conseguir desligar-me e deixei-me levar. Não criava conteúdo, não tirava fotografias, não descarregava inspirações. O meu telemóvel estava a ter as merecidas férias em muitos, muitos anos. Tanto é que a bateria aguentou uma semana inteira, algo muito significativo para alguém que mais parecia ter um telefone fixo por estar sempre ligado à tomada.

Estava saturada do mundo digital, principalmente do Instagram. Hoje em dia toda a gente se acha blogger. Basta ter gosto e comprar maquilhagem ou roupa regularmente e isso basta para se poder denominar de blogger. O sol nasceu para todos mas temos que saber separar as águas: ter um blog é uma coisa, ser blogger é outra. Eu tenho um blog, não tenho um rendimento que provém deste espaço de partilha, não posso nem quero viver disto. Os produtos que recebo das marcas com quem mantenho uma relação de colaboração ou das quais sou embaixadora são um mimo delicioso, não posso negar. No entanto não posso pagar a conta da água com 20 batons ou a conta do gás com um conjunto de pincéis da marca X que é o último grito. Por isso eu não sou blogger, não me dedico a 100% a este mundo e sei qual é o meu lugar. Muita gente não sabe e está a saturar as redes sociais.

As marcas, por sua vez, estão cada vez mais embrenhadas nas relações com bloggers e influencers perdendo, algumas das vezes, a noção de como atingir os objectivos de forma natural e ponderada.
Por sua vez, existe um boom de figuras públicas que se tornam bloggers e youtubers, que viram o seu protagonismo ameaçado pelas novas "pessoas sensação" e que cruzam caminhos que não são os seus, com temas que não dominam.

Cansei. Cansei de ter dias temáticos no Instagram. Ora então vejamos:

Segunda-feira - O dia da água micelar. Toda a blogger, blogger wannabe, influencer e famosas partilham um foto em frente ao espelho com um algodão e a embalagem de água micelar na mão.

Terça-feira - É o dia do queijo de cabra. Vamos fazer um prato fancy e gourmet com a embalagem do dito queijo como pano de fundo e dizer que não dispensamos na nossa rotina, mesmo que tenha sido a primeira vez que provámos.

Quarta-feira - Dia das malas de viagem XPTO. Vamos ali ao aeroporto com o nosso melhor outfit, sentamos o cagueiro em cima da mala, fazemos uma pose de "não estava à espera que me tirassem uma foto aqui" junto ao programa das partidas e voltamos para casa para editar a foto no Lightroom e preparamos já a publicação de amanhã.

Quinta-feira - Dia do produto para lavar o pipi. Porque lavar o pipi com gel de banho é tão demodé, cruzes credo. Vestem o melhor roupão turco e pousam orgulhosamente com o produto para o pipi.

Sexta-feira - Dia de mostrar o acabamento daquela máscara de pestana super wow. Tiram fotografias com os seus abanicos aka pestanas reviradíssimas e tentam enganar os seguidores quando na semana anterior fizeram publicidade à clínica em Bucelas que faz extensão de pestanas. Terão os seguidores memória de Dory? Não me parece.

Sábado - Dia de SPA caseiro é sinónimo de..? Depilação! Simulam a depilação de pernas que estão depiladas e reluzem com a luz que entra pela janela. Vamos fingir que não fazemos depilação a laser e que usamos regularmente bandas de cera. Mas atenção, as pernas têm que estar depiladas para mostrar toda a eficácia do produto!

Domingo - É dia de recriar a foto do Pinterest mais badalada. Toda uma preparação do catano para uma fotografia. Existem mil iguais mas isso não importa rigorosamente nada.


Foi por isto que fiquei saturada e enjoada. Ver sempre o mesmo, sem inovação. Ver que as marcas não se esforçam para divulgar os produtos da melhor forma, não se importam com a saturação do consumidor. Sai de cena quem não é de cena e eu precisei de sair e respirar.

Também no Facebook tive vontade de eliminar a minha conta e seguir caminho. Pessoas que se apunhalam e que falam mal uma da outra a espalhar mel no Facebook. Pessoas por quem tu passas na rua e não te cumprimentam mas te pedem amizade para acompanharem de perto todos os teus passos. Imagens e vídeos de bebés entubados, de idosos que são maltratados, de cães pele e osso, de gatos abandonados. Eu não quero nem tenho que ver isso! Eu não preciso de ver todos os dias imagens da Etiópia para saber que existe fome nesse país. É uma onda de violência psicológica que nos entra pelo ecrã dentro. E por não ser obrigada elimino quem faz esse tipo de publicações. Tal como na minha vida, eu tenho quem eu quero nas redes sociais. Simples.

Neste tempo de pausa pude ver quem realmente se importa comigo e notou de imediato a minha ausência. Curiosamente são seguidores que não me conhecem pessoalmente. Curiosamente os ditos "amigos" só colocam o desejado like quando tu lhe podes dar algo em troca, quando lhes podes ser benéfico. Quando deixam de precisar da tua opinião estão-se a borrifar no assunto.
Este foi o ponto mais positivo no meu detox de redes sociais: perceber quem se importa, quem gosta de ti mesmo quando não publicas.

Sou da opinião que de tempos a tempos todos devemos fazer este tipo de retiro e perceber que não existem vidas perfeitas. Existem fotos perfeitas que nos transmitem isso, é completamente diferente.



Imagem via Pinterest

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