19 junho 2017

Quando nos sentimos pequeninos!

 Ontem o dia amanheceu triste. As notícias que se encavalitavam nos feeds das redes sociais relatavam um cenário de horror, dantesco. O número de mortos aumentava com o passar das horas e o aperto no coração era cada vez maior e angustiante.
 Ontem não conseguia escrever algo com pés e cabeça, não conseguia expressar a minha revolta. A noite, passada em branco devido ao forte calor que se faz sentir no Alentejo, fez-me pensar em mil e uma coisas. Os trovões que se ouviam lá ao fundo já a madrugada ia avançada faziam-me estremecer. Para quem, até aqui, não percebia a razão da minha Brontofobia. Para quem achava que era uma fobia de gente maricas que não suporta o som de um trovão. Para quem ainda não tinha pensado que um "simples" raio pode originar uma tragédia com esta dimensão. Sim, eu já vi um raio incendiar uma árvore e a minha fobia começou nesse dia.
 O medo que me atravessa cada nervo quando oiço um trovão, quando vejo um clarão ou sinto a casa tremer em nada se assemelha ao medo sentido pela população de Pedrógão e das zonas envolventes. O pavor de ter que deixar uma vida de memórias para trás, um ninho que era nosso e que sabemos que vai ser consumido pelas chamas. Não há escolhas a fazer e o objectivo é apenas um: salvar a vida apenas com a roupa que se tem no corpo. Quando as forças lhes faltam, quando a Mãe Natureza ganha e nos mostra a sua verdadeira força infinita nada resta fazer senão desistir. Percebemos que os nossos problemas de caca do dia-a-dia em nada se comparam a estas vítimas que perderam tudo o que demoraram uma vida a conseguir. Queixo-me do calor infernal do Alentejo mas o meu pensamento está com as pessoas que perderam as suas vidas dentro de automóveis que atingiram os 600 graus. Eu não consigo imaginar, quem está a ler este texto também não.

 Numa altura em que o país está profundamente entristecido com o Inferno que vivemos em Pedrógão e outras localidades de Portugal onde deflagraram incêndios florestais, é altura de calar o bico com críticas descabidas para uma altura negra como esta. Não nos podemos nunca esquecer que quando apontamos um dedo temos três a apontar na nossa direcção. Sim, somos todos culpados.
Somos culpados quando criticamos e não damos o exemplo.
Somos culpados quando não limpamos os terrenos circundantes às nossas casas ou alertamos as entidades competentes. Eu já o fiz e surtiu efeito.
Somos culpados quando negligenciamos o nosso planeta que está farto de nos dar sinais e fingimos ser cegos.
Somos culpados por não assegurar o futuro dos nossos filhos e netos com práticas ecológicas.
Somos culpados quando apenas nos lembramos dos bombeiros nestas alturas, No final de Agosto está tudo esquecido e lá terão os desgraçados que fazer peditórios com rifas para a angariação de viaturas de combate a incêndios.
Somos culpados quando fechamos o vidro e dizemos que não queremos. Afinal para quê mais uma viatura? Não é para ostentação, posso garantir.
Os culpados somos nós que achamos que a Mãe Natureza não tem força suficiente para acabar com isto tudo. Precisam de mais provas?
E as alterações climáticas e o aquecimento global? A origem destas trovoadas secas e calor despropositado? Quem é o culpado? Não é só o José ou a Maria, somo todos nós. Nós que cometemos erros diariamente e nem sequer damos conta.

 Mas agora de que adiantam os queixumes? De que adiantam os apontares de dedo de reprovação? DE NADA! Nada vai trazer as pessoas que perderam as suas vidas de volta, nada vai fazer com que num estalar de dedos as casas voltem a ser edificadas e percam o negro do fumo pelo branco imaculado. Por isso, é hora de arregaçar as mangas e mostrar que para além de inconscientes também conseguimos ser solidários. Vamos apoiar as vítimas e todos os guerreiros da paz que deixam as suas famílias e vão defender outras famílias, outras casas, outras terras que não as suas. Vão defender com unhas e dentes aquilo que é de todos nós. Vão lutar até à última gota de suor, vão encontrar adversidades, mas vão e dão o peito às balas. Representam cada um de nós que neste momento se sente pequenino e com uma impotência sem medida. Representam todos aqueles que queriam lá estar de mangueira apontada ao inferno, a dar assistência mas por motivos óbvios não o podem fazer.


Vamos ajudar:

 Façam o vosso donativo para o Iban criado pela CDG como conta solidária para ajudar as vítimas que perderam TUDO.

 PT50 0035 0001 00100000 330 42

 Podem ainda fazer o vosso donativo ao ligar para a linha de apoio solidária 760 200 600 e assim doar 0.60€+IVA às vítimas desta enorme tragédia. 


 Felizmente a generosidade fez com que os bombeiros voluntários de Pedrógão não tivessem mãos a medir na logística dos bens alimentares recebidos até ontem à noite. Sugiro, por isso, que contactem organizações da zona para perceberem onde podem doar roupas e outros artigos a quem tudo perdeu para as chamas. Resta agora recomeçar do zero com a ajuda de todos nós, com um simples gesto que se torna gigante a quem neste momento não tem nada. 




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