03 março 2016

Alentejo sentido


 Ao Henrique Raposo:

 Henrique, Henrique, Henrique...
 Não gosto de falar mal de ninguém sem conhecer pessoalmente mas tu até que mereces, sabias? Ao ponto de teres lugar de destaque neste blog modesto de uma alentejana modesta. Alentejana essa que tem muito orgulho na sua terra e no seu povo. Daquelas alentejanas bravas, com pêlo na venta (não Henrique é apenas no sentido figurativo, as alentejanas não têm bigode de enrolar com os dedos como tu deves idealizar nesse teu imaginário pouco desenvolvido) e que defende a sua terra e aqueles que nela habitam com unhas e dentes. Sabes porquê? Porque existe uma riqueza histórica e cultural que tu nunca tiveste o prazer de conhecer. Azar o teu.
 Aqui nasci, aqui me criaram com a melhor educação do mundo e onde tive a melhor infância que podia ter. Cresci no campo, em ambiente puro. Ambiente puro e gente pura, onde existe espírito de cooperação e todos os vizinhos falam uns com os outros. Sempre que precisava de ovos pedia à vizinha Maria ou desenrascava um ramo de salsa à vizinha Xica. Posso correr Mundo mas só aqui me sinto em casa Henrique. Sabes o que isso é? Conheces os teus vizinhos? Sabes o nome deles?
 Sabes porque não encontraste as tuas raízes? Porque elas não se encontram dessa forma que julgas. Sentem-se. Sentir a terra e as pessoas, com alma e coração, com o espírito aberto. Vieste com o propósito de o sentir ou estavas ocupado a tentar encontrar defeitos? Esse é o mal de muitos iguais a ti, não vêem com olhos de ver. Olhos que não vêem, coração que não sente.

 Não sei por onde passaste, com quem te cruzaste. Tiveste azar ou és mesmo parvo? Secalhar famílias como a tua há muitas. Há alentejanos maus, como há minhotos maus, algarvios maus, lisboetas maus, etc.

 De que Alentejo falas tu? De que pessoas falas tu? Não percebo como é possível escreveres coisas tão imbecis. Encontram-se bons talentos nos jovens escritores mas no teu caso só podemos dizer que qualquer badameco escreve um livro. Perdeste tempo e arreliaste um povo. Ofendeste-nos Henrique. Que não gostes do Alentejo é um problema teu, outros tantos há que não devem gostar. Mas se não gostas deixa-te estar no teu canto e não venhas desafiar um povo como o nosso.

 Achas as planícies e os chaparros aborrecidos? Achas os alentejanos que dormem sestas debaixo das árvores preguiçosos? Achas que os pais olhavam para os filhos como fonte de rendimento? Caramba Henrique, onde cresceste tu rapaz?

 Só nós, os verdadeiros alentejanos, conseguimos apreciar uma planície na sua plenitude. Conseguimos tirar proveito do nascer e do pôr-do-sol, apreciá-lo em todo o seu esplendor. Não se nasce alentejano, é-se alentejano. Temos orgulho na nossa gente e no seu passado. Alguma vez te perguntaste porque dorme o alentejano a sua sesta debaixo do chaparro? Experimenta trabalhar um dia no campo desde o nascer até ao pôr-do-sol com temperaturas infernais, palmear km´s durante o dia, juntar rebanhos e logo me dizes se não procuras uma sombra. A vida dos meus antepassados e dos teus foi muito dura, desde bebés iam para o campo com os pais porque não tinham com quem ficar. Não havia papinhas de bebés nem fraldas descartáveis, a alimentação era iniciada com açordas e sopas de tomate. Talvez por isso sejamos bem constituídos e sabemos o que fazer com um pedaço de pão, um dente de alho e azeite. Cedo aprendiam as lides domésticas e os trabalhos agrícolas e não havia tempo para ir à escola. Nessa altura o país precisava de trabalhadores, não era de doutores.
 Felizmente os meus avós sabiam ler e escrever mas quando vejo alguém borrar o dedo numa almofada de tinta de carimbo e deixar a sua marca numa qualquer folha de papel parte-me o coração. Ver aquele rosto, normalmente carregado de histórias, e aquela marca que depressa nos remete para uma infância de trabalho. Essa pessoa que tanto trabalhou e tanto amor nutre pela sua terra tem agora que ver idiotas como tu na televisão a difamar uma terra tão boa como a nossa.

 Eu já vivi em Lisboa mas tive necessidade de voltar. Sabes porquê? Porque não estavam lá as minhas raízes. Sentia falta de sair à rua e ter um quintal ou jardim. Sentia falta do cheiro a lareiras no Inverno, do cheiro a pasto quente no Verão. Sentia saudades de acordar com a buzina do padeiro e com os chocalhos das ovelhas à minha porta. Sentia falta de acordar e não ouvir nada, da tranquilidade dos dias aqui passados, daquilo a que muitos chamam "pasmaceira". Só houve uma coisa que Lisboa me deu que o Alentejo não me deu. Sabes o que foi? Um amor para a vida inteira. Mas até nisso tive sorte porque também ele tem raízes alentejanas e quer viver no Alentejo. Ele não nasceu alentejano, tornou-se alentejano. Percebes a diferença?

 O que tu disseste naquela entrevista ao outro senhor igual a ti, de seu nome Pedro Boucherie Mendes, rachou-me de cima a baixo. Uma coisa é liberdade de expressão, tu tens a tua e eu tenho a minha (este blog é prova disso) outra, completamente diferente, é ofender-se alguém. Erraste ao dar aquela entrevista onde te querias armar em engraçadinho e perdeste tempo a escrever algo sem sentido. Não são só os alentejanos que ficam revoltados e tristes, são também aqueles que levaram um bocadinho de nós e que se apaixonaram por esta terra.

 Não gostas, não voltes. Se um dia quiseres, quando tiveres mais maturidade e inteligência, tenta perceber o sentido do verdadeiro alentejo. Não venhas com o propósito de o descobrir, isso acontecerá naturalmente e aí verás que foste injusto nas tuas palavras. Não és obrigado a ter orgulho nas tuas raízes mas tens o dever de as respeitar.


Imagem via www.sograpevinhos.com


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2 comentários

  1. Boa tarde sigo o teu blog há um tempo como sigo outros. Gosto muito do teu nunca comentei nenhum porque nunca senti necessidade de tal. Mas hoje depois do que li sinto que tenho de te dar os parabens. Queria dizer mais mas nao o consigo expressar a escrita não é o meu forte por isso um grande PARABÉNS pelo texto e im grande obrigada. Beijinho

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    Respostas
    1. Olá!

      Muito obrigada pela tua mensagem! Fico contente que o meu texto tenha transmitido algo bom, por vezes não é fácil passar a palavras aquilo que nos vai na alma...

      Beijinho,
      Ana

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