23 fevereiro 2015

Pedi ao tempo mais tempo, para olhar para ti

 Gosto de escrever as coisas de forma "desmandada". Começo a escrever e as coisas fluem naturalmente. É o que me vai na alma e procuro escrever da forma mais parecida ao meu sentir. As próximas linhas não foram fáceis de viver, de escrever e para muitos não serão fáceis de ler. Quem nunca viveu o amor por um animal não vai compreender o sentido de cada palavra escrita.




 A última semana foi seguramente uma das mais difíceis de toda a minha vida. Quando te deixei no veterinário na Segunda-Feira pensei que tivesses comido alguma coisa que te fizesse mal. O teu quadro clínico não fazia adivinhar os dias seguintes. Quando me adoptaste como tua dona, tua Mãe de coração, eu comprometi-me que nunca te deixaria sozinha e te daria tudo para te ver feliz e com qualidade de vida. Não foi fácil entregar-te na clínica ainda que fosse para o teu bem e para tratarem de ti. Se fosse permitido estaria contigo dia e noite, como se faz com os filhos. Almoçava em cinco minutos para correr para perto de ti e te mimar, para te obrigar a comer e te pedir para te aguentares. Só mais desta vez. Contava as horas durante a tarde para te poder fazer a segunda visita do dia. Tu não sabes, mas aqueles minutos em que olhava para ti era a melhor parte do meu dia. Quando entrava e olhava para ti já estavas de orelha afitada por ouvires a minha voz no corredor. Quando a porta da jaula se abria os teus olhos ganhavam brilho, tal como os meus. Era o nosso momento e aquele pelo qual aguardávamos impacientemente um dia inteiro. Gostava de te aconchegar e te tapar para teres uma noite descansada. Os beijos eram sempre poucos e todos os dias havia a promessa que amanhã voltava e um pedido para te portares bem e não morderes ninguém. O meu mundo só desabava no momento em que punha o pé dentro de casa e não te via a abanar o rabo. Chorei tanto que pensava que tinha esgotado a reserva que o meu depósito lacrimal albergava. Chorava e pedia a todas as entidades divinas para te concederem mais uma oportunidade. Rezava como sabia mas com toda a minha força.
 Ontem disseram que te podia trazer a casa para te animares. Contei os minutos para te ir buscar e te trazer a casa, mais uma vez. Quando te vi não te reconheci. A minha Becky estava diferente e o brilho no olhar tinha-se apagado. Engoli em seco e não me desmanchei à tua frente para o meu negativismo não te afectar. Trouxe-te para casa, para a tua casa. Ficaste no teu canto do costume, bebeste da tua tigela e aninhaste-te na tua manta turquesa, a tua preferida. Eu sabia que era a últma vez que estavas na nossa casa e deitei-me no chão ao teu lado. Olhei para ti horas a fio e só pedia mais tempo para ter tempo de olhar para ti. Via os teus olhos a quererem fechar-se com o cansaço e o desânimo. Beijei-te e abracei-te até ficar com o teu cheiro em mim e tu levares o meu cheiro contigo. Levei-te de volta para tratarem de ti e tentarem baixar esses diabretes mais uma vez. Sempre foste uma cadela de sorte e estavas rodeada de pessoas que, tal como eu, queriam fazer tudo para te ajudar a saltar esta barreira na tua vida. Ontem despedi-me de ti, mais uma vez e com a promessa que hoje voltaria.
 Voltei cedo porque a preocupação não me deixava descansar e sabia que estavas a sofrer desde ontem. A Doutora falou comigo e foi sincera, Aquilo que eu sempre peço: sinceridade, mesmo quando magoa e nos atravessa ao meio. Disse que não podiamos remar mais contra a maré e estavas a entrar em sofrimento, Aquilo que sempre recusei. Tive que tomar a decisão mais difícil de toda a minha vida. Aquela de quem fugimos e tentamos passar a batata quente a outro. Não havia como escapar. Ou era egoísta e prolongava o teu sofrimento só para te poder sentir ou deixava que descansasses desta tua luta, tão grande para uma princesa pequenina. Quando fui ao teu encontro já ia arrasada em lágrimas. Eram tão grandes e grossas que as sentia cairem em cima das minhas botas. Já não era a minha Becky que ali estava. Era um corpo pequeno e peludo com uns olhos semi-abertos e cansados. A tua respiração era arrastada e senti que tinhas desistido de tudo. Não te podia exigir mais só te podia dar o descanso merecido.
 Nós nunca gostámos de despedidas, pois não miúda? Ouviste a minha voz e abriste os olhos para olhar para mim, só mais uma vez. A última vez. A jaula era pequena para as duas mas quase que me enfiei lá dentro para te dar o maior abraço de todos, para ficar com o teu cheiro em mim. Dei os últimos beijos carregados de amor e a última coisa que te disse foi "Perdoa-me mas eu amo-te demais para te ver sofrer!" O teu suspiro fez-me ter a certeza que eu tinha tomado a decisão certa. Deixei a cobardia de lado e estive ao teu lado enquanto aquele líquido te punha no sono mais profundo de todos. Sempre estive ao teu lado não era agora que ia virar as costas à realidade. A minha Wild B ia encontrar algo muito melhor do outro lado, paz e tranquilidade.
 Enquanto fechavas os olhos as lágrimas caíam com mais intensidade. Fiz tudo o que podia por ti e tenho a minha consciência tranquila. Acho que fui uma óptima dona e tu foste a minha miúda, a melhor de todas! Obrigada por me teres ensinado uma definição diferente de felicidade e me fazeres sorrir todos os dias. Vou sentir falta que me recebas quando chego a casa, que reconheças o meu carro quando estou no ínicio da rua, que me dês beijinhos e me batas com a pata nos joelhos para te fazer massagens, do teu ressonar. O carteiro disse-me que já tinha saudades de te ouvir ladrar e de quando lhe mordias as calças. Agora vou ser eu a miúda com mais mau feitio cá em casa, não acho piada a isso.
 Sei que tu tanto quanto eu queriamos agradecer a quem tratou de ti na tua última semana. O facto de hoje deixares a Doutora fazer festas foi uma forma de agradecimento, eu sei. Foram incansáveis e trataram tão bem de ti! Estou tranquila e em paz embora muito triste com a tua partida. Obrigada por me teres transformado e me teres ensinado a gostar ainda mais de animais. Ensinaste-me que os cães também sorriem, nem que seja com os olhos. Até já princesa B.




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10 comentários

  1. Não é cliché, sabes que ela está bem no céu dos cães (que é um sitio que existe, desde que eu tenho 3 anos até hoje) e a pensar muito em ti. Bichezas de um raio que se vão assim embora sem avisar. Havíamos de os poder prender com as trelas e assim ninguém os levava. Beijinhos, miúda, força!

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    1. Obrigada querida Ana! Quero acreditar que estará melhor e espero que um dia me possa perdoar mas fiz tudo o que tinha que ser feito. Eles arrebatam-nos e ensinam-nos a ser feliz com um abanar de cauda e umas lambidelas. Beijinhos

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  2. Aninha como eu te percebo!! Caíram me as lágrimas ao ler o que escreveste. E só quem gosta tanto de animais pode escrever assim :) lindo mesmo. E eles são maravilhosos! Tenho um cãozinho que já tem 15anos e se lhe acontecer algo de mau nem sei o que vai ser de mim, sempre foi e é o meu menino e o menino aqui de casa :). Beijinho e muita força, um dia ainda vão estar juntas *

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    1. A realidade é que nunca estamos preparadas Ritinha. A presença deles na nossa vida é como um elixir, eles nem sabem o bem que nos fazem! Obrigada pelas tuas palavras e um grande beijinho

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  3. Ana, confesso que não li a totalidade, pois a meio já estava a chorar, é uma situação que me diz muito, pois também no inicio de Janeiro partilhei no blog, um problema de saúde que descobrimos no Natal no nosso gatinho, anda a ser tratado desde essa altura e são temas que mexem comigo. Desejo-te imensa força querida, envio-te um abraço virtual com muito carinho. Beijinhos

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    1. Querida Sónia, muito obrigada pelas tuas palavras! Quando já estamos tão habituados a eles e começam a surgir os problemas é muito complicado. Mas temos que ser fortes e deixar que os veterinários façam o trabalho deles, eles depositam tanta esperança neles quanto nós! O teu gatinho vai ficar bom, pensamento positivo porque eles sentem a nossa negatividade. Beijinho grande

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  4. Tens razão Ana, apenas quem tem (e ama) os animais é que pode compreender estas tuas palavras. Eu compreendo e posso dizer que terminei de ler este texto em lágrimas. Beijo grande

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    1. Com a tristeza vem também o alívio de não a ver sofrer mais. Está num sítio melhor e em paz. Esquecer nunca esquecemos mas só o tempo ajuda a apaziguar a dor! Beijinho grande

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  5. Confesso que não consegui ler tudo... Desmanchei a chorar ainda nem a meio ia. Compreendo totalmente esse amor. Eu tenho uma Cindy na minha vida há 3 anos, e não consigo imaginar-me a viver sem ela. Nunca! A minha Cindy é igual à Becky, uma Spitz / Lulu da pomerânia. Qualquer casa onde viva um animal perde sempre a vida depois de este partir, mas quem tem um Lulu sabe que, embora sejam pequenos, têm um energia maior que o mundo.
    Resta-me desejar muita força neste momento difícil.. A D or deve ser tremenda, mas a decisão, por muito que dificil que tenha sido, foi a correcta. Os nossos melhores amigos nunca deverão sofrer pelo nosso egoísmo. A Becky está de certeza muito agradecida por tudo que a dona lhe deu na vida, incluindo o seu merecido descanso..
    Força!!!! <3
    Carina & Cindy

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    1. É verdade Carina, são seres absolutamente extraordinários e muito activos. A dor é gigante e as saudades racham-me ao meio, não posso negar. Ela era a minha princesa e enchia os meus dias de alegria. A sua Cindy ainda tem muitos anos pela frente, aproveite cada dia na companhia da sua menina :) Obrigada pelas suas palavras amigas. Um beijinho para si e muitas festinhas para a Cindy <3

      Ana

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