16 agosto 2014

A Anna responde #2 - Em quem pensas todos os dias?

 Todos os dias penso no meu avô materno que faleceu há 4 anos, viveu perto de mim desde que eu nasci. Não há um único dia que não me venha à memória alguma frase, um momento, uma história. Foi uma morte que não conseguimos perceber e por isso custa-nos a aceitar. O meu avô morreu por negligência hospitalar e ainda hoje tento encontrar respostas que ninguém me consegue dar. É, sobretudo, uma revolta gigante. Revolta de querer castigar quem, por algum momento, o condenou a este desfecho. Quero sentar-me à frente dessa(s) pessoa(s) e explicar o que sinto e a dor que causaram. Mais do que explicar a dor que sinto é fazê-los perceber que ele sofreu com esse desfecho, com essa decisão de não fazer caso de um doente. Era por ser idoso que desistiram de lhe dar uma oportunidade? Se fosse um familiar vosso também desistiam devido ao factor idade? Não fariam tudo para o salvar e continuar a vê-lo saudável por mais tempo? Era só isso que eu pedia, que fizessem isso com o meu avô. 
 Ainda hoje consigo sentir os seus beijos que faziam comichão por causa do bigode. Ainda sinto o seu cheiro a mentol por causa dos rebuçados que um dia substituíram os cigarros. O que me deixa em paz é que de certa maneira, ainda que inconscientemente, me despedi dele. Dei-lhe todos os beijos que podia dar, obriguei-o a comer para ter força nas canetas quando saísse dali, disse que o amava e disse-lhe "Até já!".
 Ainda hoje prefiro ir ao cemitério sozinha para não chorar à frente de ninguém. É uma dor que não passa e todos os dias me lembro como fui feliz com ele, aquilo que sou também se deve a ele. 
 
 Sabes que te dei tudo aquilo que podia dar Avô. Arranjei força que eu pensava que não tinha e dei-te toda. Não sei se te ajudou mas quero acreditar que sim. Tenho saudades dos teus beijos, de te ver no quintal quando chegava a casa, com a tua boina e a tua bengala a bater no chão. Tenho saudades de comer amendoins e tremoços contigo, dizias sempre para eu não comer muitos porque me fazia mal. Tenho saudades de comer os teus caracóis (os melhores que comi até hoje), carregadinhos de picante para puxar a cerveja. Desculpa não ter conseguido manter a tua colecção de malaguetas (8 espécies diferentes) mas tu tinhas o dom das flores e plantas. Eu juro que não regava todos os dias para não as afogar mas elas não resistiram.
 Sinto saudades como nunca senti de ninguém Avô. Sinto a tua força comigo todos os dias, sinto a tua protecção e isso reconforta-me tanto! 
 Até já meu querido Avô. 
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